COMO? GRUPOS OPERATIVOS?
- Celi Cavallari e Maria de Lurdes Zemel
- há 1 hora
- 4 min de leitura
O trabalho em grupo é necessário e precioso.
Fazer um grupo no e de trabalho não é simplesmente se sentar em círculo e contar com sua intuição.
Sim, precisamos contar com a nossa intuição, mas precisamos também ter alguma instrumentalização teórica.
Pensando nisso, a ABRAMD Clínica-SP ofereceu aos CAPS AD do Brasil um curso sobre GRUPOS OPERATIVOS.
Leia essa experiência, comente!

“Eis o que sucede conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com seu olhar e sua expressão, de brandura com o que nela é singular”
Friedrich Nietzsche
Nietzsche nos oferece um caminho precioso diante de tudo que introduzimos no nosso conhecimento e na nossa prática diária ou profissional: como na música, primeiro temos que aprender; depois temos que suportar a estranheza deste novo conhecimento e... ousando ampliar o pensamento de Nietzsche podemos executar e organizar esse novo conhecimento na nossa prática profissional.
Nos parece que temos uma grande responsabilidade em permitir que a “música” que conhecemos toque e vibre para nossos pares; afinal, como parte da nossa sociedade, todos somos governo.
Nossa compreensão é psicanalítica e consideramos sua pertinência para cada atendimento em todo e qualquer território. A Rede de Atenção em Saúde Mental – RAPS - se compõe de vários serviços destinados ao acolhimento e cuidado em saúde mental.
Consideramos essencial o Centro de Atenção Psicossocial álcool e (outras) drogas - CAPS AD e entendemos que este serviço oferecido para pessoas com sofrimento mental requer nossa implicação enquanto Sociedade Civil. Como um ato profissional e político, no grupo da ABRAMD Clínica/ SP decidimos oferecer nosso conhecimento científico para contribuir com esse trabalho.
Durante a realização do IX Congresso Internacional da ABRAMD - Associação Brasileira de Estudos sobre Drogas, em Brasília, o grupo da ABRAMD Clínica /SP realizou um trabalho de Grupo Operativo com o CAPS AD Candango. A partir daí nasceu a ideia de possibilitar o acesso dessa metodologia a outros CAPS interessados. Em 2024, após processo seletivo preenchemos 100 vagas de profissionais de equipes multiprofissionais da rede de saúde de várias partes do Brasil e iniciamos nosso curso de Grupos Operativos, que preencheu mais 100 vagas em 2025, desta vez com participantes de todas as regiões do país. Cada aula é ministrada por um integrante de nosso grupo ou por professor convidado, conforme a especificidade.
Cada tipo de grupo tem uma técnica específica e, portanto, os grupos operativos apresentam procedimentos próprios para sua aplicação. Fazer grupos é muito mais do que colocar as pessoas em círculo e passar a falar; especialmente em uma instituição que cuida da saúde mental das pessoas, essa prática demanda conhecimentos e respeito.
Pensando nessa necessidade, organizamos um curso para favorecer que os trabalhadores dos Caps AD tenham um recurso a mais na sua formação continuada para suas ações no serviço.
Organizamos nosso conteúdo a partir do histórico e da política de saúde mental e posteriormente apresentamos alguns autores precursores dos trabalhos grupais.
Em Freud vimos a criação de suas clínicas públicas, trabalho precioso acontecido logo no final da Primeira Guerra. “Assim, nossos antecessores a começar pelo próprio Freud, não tiveram medo de inventar diferentes dispositivos que possibilitassem a operação psicanalítica nos mais diversos campos sociais, instituindo o que hoje denominamos “psicanálise nas situações sociais críticas”. ( Danto, E. –2019 - pág. XV)
“Freud proclamou: É possível prever que a consciência da sociedade irá se despertar, e fará com que se lembre de que o pobre deve ter tanto direito à assistência para sua mente ...; que as neuroses ameaçam a saúde pública não menos do que a tuberculose, e tampouco podem ser deixadas aos cuidados impotentes de membros individuais da comunidade.” (Danto, E.- - 2019- pág. 9)
No Brasil, os pobres, na melhor das hipóteses, são tratados nos CAPS e podemos fortalecer esse trabalho também com a aplicação dos grupos operativos.
Pelo mundo muitos psicanalistas foram trabalhando com grupos. Na Argentina, inspirado pelas ideias de Kurt Lewin, Enrique Pichon-Riviére criou e aplicou o que chamamos de grupo operativo.
Diz ele: “O grupo operativo é universal pelo fato de que sua técnica torna possível a abordagem de qualquer situação, seja de aprendizagem de cura, de todos os aspectos terapêuticos que possam ocorrer em comunidades, ou com indivíduos internados, por exemplo.” (1980 – pg 280)
No período pós 2ª guerra Mundial, a necessidade do atendimento grupal se intensificou e na Inglaterra Bion iniciou grupos com soldados, no front. Bion complementou os trabalhos já existentes ampliando o conceito das defesas grupais (dependência/ luta e fuga / acasalamento):
“No tratamento do indivíduo, a neurose é apresentada como um problema do indivíduo. No tratamento de um grupo, ela tem que ser apresentada como um problema do grupo” (1975- pg 3);
“No grupo, o indivíduo dá-se conta de capacidades que são apenas potenciais enquanto se encontra em comparativo isolamento. O grupo, dessa maneira, é mais que um conjunto de indivíduos, porque um indivíduo num grupo é mais que um indivíduo em isolamento.“ (1975- pg 81)
Para 2026 nosso curso vai oferecer temas mais aprofundados, preferencialmente para os profissionais que já fizeram o ano inicial.
Assim pretendemos apresentar a possibilidade de aplicação dessa técnica na vida do dia a dia dos CAPS AD.
Vamos falar de grupos no território, grupos de famílias, grupo de mulheres…
Esperamos que nossa ação seja de ajuda aos técnicos que desejam se aperfeiçoar, estudar e ampliar seu conhecimento para o atendimento da nossa população
REFERÊNCIAS:
BION, W.R. – Experiências com grupos – Editora da Universidade de São Paulo - 1975.
DANTO, E. A. – As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social . Editora Perspectiva - São Paulo – 2019.
PICHON- RIVIÈRE, E. –Temas de Psicologia Social – ano 4 no, 3, setembro de 1980.
SOBRE AS AUTORAS:
Celi Cavallari: Psicóloga, psicanalista clínica e institucional. Mestre em Psicologia clínica PUC/SP, feminista, antimanicomial e anti proibicionista, em defesa dos Direitos Humanos e da Redução de Danos.
Maria de Lurdes S. Zemel: Psicóloga, psicanalista da SBPSP, membro fundador da ABRAMD e da ABRAMD clínica, membro do Coletivo INTERCAMBIANTES BR e SP, membro do SOS Brasil Psicanálise (ateliê 5 Instituições).
