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CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA REDUÇÃO DE VULNERABILIDADES

Hoje publicamos um texto do Stylo Nobre! Você sabe quem é o Stylo Nobre? É o Breno! O Breno tem estilo nobre no seu apelido e no texto que ele nos apresenta. Ele fala do atendimento a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e vulneração. Fala do “respeito que, fundamentalmente, quer dizer a possibilidade de enxergar o outro nas suas peculiaridades”. Leia e comente em nosso Blog!


Diante da complexidade desse assunto, quando dizemos de cuidado com crianças e adolescentes em situação de rua, a oportunidade de estabelecer algum vínculo vem do primeiro olhar onde o posicionamento do profissional tem que vir na forma de acolhimento, cada criança no seu papel de criança, traz a subjetividade nas maneiras de lidar com as vulnerabilidades e por diversas vezes o cuidado só terá continuidade se for construído junto e dentro das possibilidades de cada sujeito.


Quando sugerimos alguma atividade, a intenção é justamente ampliar o acesso desses sujeitos, mostrar outras maneiras de chegar a utilizar os recursos que a cidade oferece, proporcionando esse intervalo de seu território, podemos ver como eles se organizam. Durante uma conversa, diversas possibilidades de cuidado aparecem, como algo relacionado à saúde, esporte favorito, qual estilo de som os agrada, diante do risco e a difícil situação, passadas por quem está nas ruas e como lida com isso.


Na prática percebemos que a linguagem corporal tanto quanto as palavras usadas podem influenciar na transferência com essa galera, onde cada gesto é muito bem observado pelos adolescentes e eles interpretam diante todo seu repertório de vivências, em grande parte das vezes, a postura é rígida até porque nas ruas não dá pra ser tão gentil, em um lugar onde o tempo todo tem alguém querendo se aproveitar da vulnerabilidade desses sujeitos, muitos acabam se blindando quanto às ofertas que chegam, tornando mais delicada a chegada dos profissionais.


Quando conseguimos um pouco de atenção desses sujeitos é onde, com muita cautela, devemos ser assertivos e dentro do que eles trazem, possa sair uma oferta de cuidado, se ele topar a equipe tem que dar conta de se organizar para atuar naquele momento em que ele topou, pois diante tantas tentativas, de encontrá-lo nas ruas para um possível atendimento, terá que ser naquele momento em que o sujeito topar.


Importante que a presença de crianças e adolescentes estimula um atendimento diferenciado de toda equipe, tentamos tornar agradável o tempo que estiver por perto, sendo respeitado nas suas opiniões e orientado em algumas ações, potencializando esse tempo juntos, onde a possibilidade de alguma melhora venha a ser construída de forma conjunta e favorável ao contexto de cada um.


O respeito é a essência de se conseguir chegar, sair e voltar nos territórios onde se encontram o público vulnerável. É a ferramenta de maior tecnologia nas ruas. O “respeito” que, quando praticado, conseguimos ter sucesso nos atendimentos e ser aceito em pontos onde grande parte das pessoas nem sabem que existe, com a finalidade da garantia do direito à saúde de todos os sujeitos que permitem esse acesso.


Quando se estabelece um vínculo com alguém da equipe, é a oportunidade de ouro onde facilita esse acesso que inicialmente é de grande complexidade, tornando possível uma escuta qualificada para que a oferta seja dentro da demanda trazida pelo sujeito, importante o olhar clínico em campo e uma das coisas que faz total diferença é a linguagem com a qual nos referimos desde o primeiro momento da primeira abordagem.


Percebi que, em quase 8 anos de rede, quando dizemos de pessoas com sofrimento mental não é só o medicamento, acompanhamento médico ou qualquer outra coisa que acomete o corpo que vai ser assertivo para sua saúde mental, penso que quando conversamos com esses adolescentes e conseguimos ver um sorriso em seu rosto, já é um avanço no cuidado. Então isso  já abrange um horizonte muito mais amplo e possível, pois partindo desse princípio, o reflexo de um atendimento no parque quando levamos alguns adolescentes para passarem a tarde toda andando de skateboard ,naquele momento em que levamos mais de 20 usuários para conhecerem INHOTIN, um museu de artes a céu aberto e, em uma sala brincar de guerra de almofadas e, eu ter de pular na piscina para tirar um adolescente que pulou no fundo e não sabia nadar, o almoço em INHOTIN rodeados e de igual pra igual com as outras pessoas que estavam acessando o museu, tudo isso e muito mais, faz parte da melhora da saúde mental ou mesmo comprar um sorvete e sentar na calçada para uma boa conversa.


Já avançamos no cuidado com pessoas em situação de rua, mas sempre será um desafio quando se trata de “criança e adolescentes em situação de rua”, o tempo é outro e as demandas vêm de forma sutil nas falas ou de forma expressiva em seus corpos, diante tanta dificuldade vivenciada em suas vidas. O cuidado vai ser possível através do movimento dos profissionais, importante se tiver abertura desses sujeitos e acredito que, enquanto serviço, temos que nos fazer presente no território tentando um primeiro contato ou alguma continuidade no acompanhamento dessas pessoas, trabalhando em rede para que os caminhos possam se expandir e garantir que o cuidado seja efetivo, na redução de vulnerabilidades.


 

SOBRE O AUTOR:


Breno Rodrigo Diniz Stylo Nobre: Pai e marido, skatista desde 7 anos de idade frente à marca Purity Skateboard, trabalhador na Diálogo, redutor de danos da saúde mental no consultório na rua Venda Nova Pampulha de Belo Horizonte (MG), membro ABRAMD Educação – SP e articulador da ABRAMD Educação – MG, membro da Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC), membro da Frente estudante de psicologia e sobrevivente do hospital psiquiátrico Raul Soares.

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1 Comment


Texto mais que necessário falando da importância de ser "ponte" no acesso às pessoas em suas vulnerabilidades! Foi assim que apreendi esse fazer do Breno com as crianças de BH, para chegar na outra pessoa (outro lado do rio) exige afeto pra ser ponte e, assim ele tem feito e aqui nos ensinando muito bem! Me emocionei com os detalhes da visita a Inhotim. Obrigada por isso também, Breno pela escrita e Intercambiantes por dar espaço pra isso!!! Forte abraço, Karina

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