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O PROJETO CAFÉ COM ESCUTA

Em Brasília, tivemos conhecimento de um grande projeto chamado “Café com escuta”. Temos aqui esse relato, através da escrita de Márcia Caldas. Conheça o trabalho dos “escutantes” e colabore lendo e comentando.



​O Projeto Café com Escuta – atividade com a população em situação de rua – traz uma proposta e intenção de ser emancipatória e afetuosa, além de romper com paradigmas de instituições formais ao realizar contato com essas pessoas em situação de vulnerabilidade social presentes no Setor Comercial Sul (SCS), área central do Distrito Federal (DF).


As tratativas para o projeto iniciaram em 2017 e, desde então, após quase seis anos (quatro anos e meio no território), conta atualmente com a presença de voluntários de diversas áreas e especialidades que desejam ser “escutantes” de histórias vivas  das pessoas que se encontram em situação de rua no SCS.


Os escutantes por estarem livres dos trâmites burocráticos institucionais, que em geral funcionam como escudos protetores de emoções dos profissionais tradicionais, entregam-se nas relações de maneira mais visceral, podendo proporcionar trocas afetivas mais horizontais e possibilitar que as pessoas que estão em situação de rua no local possam adquirir confiança, uma vez que não é fácil a formação de vínculos, devido às circunstâncias em que vivem. 


O vínculo dos escutantes do Projeto Café com Escuta com as pessoas do local foi se estabelecendo desde final de julho de 2019, a partir de uma escuta que aparentemente é despretensiosa e sem objetivo, inclusive terapêutico, e que ganha consistências e contornos quando realizada com repetição. A atuação se dá com o corpo e afetos, podendo até ser caracterizada como uma atividade redutora de danos, em lato sensu – sentido amplo. Um processo importante e singular poderá ocorrer na troca de afetos e subsídios com o escutador, que venha a ser transformador em sua vida, com a certeza em mente de que ninguém possui o dom da salvação do outro e que cada sujeito encontra seu possível caminho.


Ouvem-se e presenciam-se muitas dores, também muitas histórias de lutas, mortes e vidas que pulsam nas pessoas, falas que são possíveis graças aos vínculos estabelecidos. Nas “teias” encontradas na vida dessas pessoas, tenta-se buscar em conjunto com elas os “fios e ancoragens” que os conectam à vida e que segundo o psicanalista Jorge Broide, poderão ajudar cada pessoa a construir seus caminhos.


Aos poucos e​ também por conta de episódios de violência contra as pessoas em situação de rua que acontecem com certa frequência no local, ​iniciaram-se​​ ​articulações com instituições que atuam no território, que vem avançando. 


Os dispositivos da saúde (​Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) – Álcool e Drogas III e Consultório na Rua), da assistência social (Abordagem Social, Centro Pop) e Conselho Tutelar, que tem como área de abrangência esse espaço e cujo olhar deve ser cuidadoso para com as pessoas em situação de rua, reconhecem a importância da estratégia do Café com Escuta e, sempre que possível, se fazem presentes bem como acolhem em seu dispositivo as demandas que são evidenciadas durante o encontro para o café, minimizando as violações de direitos humanos sofridas por esse grupo populacional.


Ao longo da existência do Café com Escuta, elaboraram-se alguns princípios, ideias e afetos para nortear a atividade, primando pelo respeito ​à​s pessoas em situação de rua e com a rua. Seguem eles: 


  • Respeitar o ser humano de maneira ampla, intensificando essa consideração ao tratar a condição de pessoas em situação de rua. 

  • Refletir sobre a diversidade de modos de existência das pessoas, além do seu próprio, sendo necessário respeito a cada maneira de estar no mundo.  

  • Tentar não julgar e não valorar comportamentos como o uso, não uso ou diminuição da quantidade de uso de drogas no cotidiano das relações com a rua. 

  • Respeitar as escolhas de cada sujeito, mesmo discordando, ficando ao lado da pessoa principalmente nas escolhas que não concorda. 

  • Ter atitudes nas relações com as pessoas em situação de rua que propiciem protagonismos individuais, pois são sujeitos detentores de direitos e não devem ser tratados como incapacitados.  

  • Estimular a busca de acesso das pessoas em situação de rua aos órgãos locais existentes, proporcionando maior vínculo a esses equipamentos, que poderá fortalecer a atuação de cada um no território. 

  • Ainda em relação aos equipamentos e serviços públicos, estimular a utilização para que cumpram sua finalidade normativa garantindo acesso para esse público específico. 

  • Escutar com o “coração e o todo seu corpo” ressaltando que existe uma troca de afetos e que provavelmente é por essa escuta sensível que se criará um vínculo com as pessoas, que poderá ajudar na atividade. 

  • Tentar seguir o fluxo e as regras da “casa do outro, com o outro”, já que nós somos sempre   estranhos ao lugar, por mais tempo que estejamos participando do Café. 

  • Criar laços de parceria e respeito com as pessoas em situação de rua na tentativa de juntos encontrar possibilidades de construções de vidas mais dignas e felizes.

  • Vivenciar essa troca de afetos, refletir que as atividades de escuta não se baseiam na caridade, apesar de vez por outra, ajudarmos as pessoas de alguma maneira, quando se deseja e tem condições. 

  • Dialogar de maneira objetiva com as pessoas do local sobre o prazo que ficarão na rua para executarem seus trabalhos/pesquisa - especialmente, estudantes, pessoas ligadas às universidades ou outros quaisquer – que preveem vínculos temporários.  

  • Ao finalizar a atividade, retomar o diálogo em uma despedida – fechamento do ciclo –-, a fim de que as pessoas possam elaborar seus lutos com as perdas das relações e o término do vínculo para que não se sintam apenas objetos de pesquisas.

  • Exercitar a sensibilidade da escuta e das relações precisa ser uma constante no trabalho com pessoas em situação de rua, para não gerar exposição equivocada. Perguntar se a pessoa permite o registro em fotos/vídeos.

  • ​​Respeitar as pessoas ao fotografar e gravar vídeos, não realizar em posições constrangedoras e de pessoas debilitadas por diversas circunstâncias.

  • Não registrar cena de uso de drogas e nem de situações que possam comprometer a pessoa. 

  • Guardar o sigilo de informações é imprescindível, conteúdos relatados não podem ser expostos em redes sociais e nem vazados para outras pessoas sem o consentimento da pessoa.

  • Sentir e agir de maneira antimanicomial é o que busca o Café com Escuta. 

  • Olhar para a rua como instituição com suas normas e seu fluxo e se adequar a ela. 


Enfim... Pessoas com trajetória de rua possuem individualidades e singularidades, necessitando serem escutadas em seus desejos e projetos pessoais. Sabe-se que uma pessoa vai para rua com diversos vínculos fragilizados ou mesmo rompidos e que, muitas vezes,  é necessário estimular os novos vínculos que se estabeleceram na rua (família afetiva que se formou), além de saber quais possíveis espaços/moradia podem trazer-lhe segurança. Segundo Emília Broide – psicanalista que trabalha no território – a moradia é mais que um espaço para morar, é um local onde você se sente seguro.


Afirmar sobre o futuro de alguém é uma tarefa impossível, porém mostrar-se disponível para trocar afetos e seguir junto, possibilitando reduzir os danos das violações de seus direitos e fortalecer possíveis construções de novos caminhos de vida, quando assim existir o desejo da pessoa é a essência do Café com Escuta. 


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


  1. Broide, E.  (2022). Desejos e poderes urbanos. In J. Broide (Ed.), A psicanálise na cidade (pp. 27-54). São Paulo: Escuta.

  2. Broide, J. (2019). A psicanálise em situações de extrema vulnerabilidade social. In M. L. Lopedote, D. S. Mayorca, D. Negreiros, M. A. Gomes & T. Tancredi (Eds.), Corpos que sofrem – Como lidar com os efeitos psicossociais da violência? (pp. 128-36). São Paulo:  Elefante. 


 

SOBRE A AUTORA:


Márcia Maria Regueira Lins Caldas: Psicóloga com atuação em saúde mental e população em situação de rua.  Voluntária do Coletivo Café com Escuta em Brasília, onde realiza escuta de pessoas em situação de rua no Setor Comercial Sul – Distrito Federal.

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