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PANDEMIA DE COVID-19, SAÚDE MENTAL E USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

Atualizado: 18 de nov. de 2022



O uso excessivo, de risco ou prejudicial e a dependência de substâncias representam uma importante preocupação social e de saúde pública em nível mundial, uma vez que podem acarretar prejuízos físicos, psicológicos e sociais. Frente à pandemia de COVID-19, que gerou diversas consequências biopsicossociais e impactou significativamente a vida da população (distanciamento social, mudança de rotina, restrição de atividades, entre outras transformações micro e macrossociais), muitos estudos voltaram-se a compreender os efeitos do contexto pandêmico na saúde mental dos indivíduos, com especial atenção às alterações nos padrões de consumo de álcool e outras drogas (Moura et al., 2011; Pavani et al., 2020; Rajkumar, 2020; Vindegaard & Benros, 2020).


De fato, a saúde mental foi e continuar a ser impactada pela pandemia, e muitos dos fatores e recursos protetivos, tais como as relações sociofamiliares, o emprego e o lazer, também foram afetados. Estudos nacionais e internacionais mostram que as pessoas passaram a se sentirem mais tristes e deprimidas em decorrência do isolamento instaurado pela pandemia. Além disso, observou-se agravamento de quadros de problemas de saúde e transtornos psicológicos preexistentes, tais como estresse, ansiedade, insônia, depressão, compulsividade, transtornos alimentares, uso excessivo de tecnologias digitais, entre outros (Bareeqa et al., 2020; Barros et al., 2020; Giannopoulou et al, 2021; Gritsenko et al., 2020; Király et al., 2020; Nissen et al., 2020; Potas et al., 2021; Schlegl et al., 2020).


No que diz respeito ao consumo de álcool e outras drogas, os dados ainda são inconclusivos e, em certos pontos, divergentes. Foram observadas mudanças variadas nos padrões de consumo, tais como aumento ou redução do uso; substituição da droga utilizada, devido à limitação de acesso; além de possíveis lapsos e recaídas nos casos em que havia diminuição ou cessação do uso (Chiappini et al., 2020; Melamed et al., 2020; Stanton et al., 2020).


No Brasil, segundo dados publicados pela Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD), houve um crescimento em torno de 38% na venda de bebidas alcoólicas. Concomitantemente, em um levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, 2020a), observou-se um aumento de aproximadamente 18% no consumo de álcool durante a pandemia. Neste ínterim, de acordo com informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, os hospitais registrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) apresentaram um acréscimo de 54% em 2020 no atendimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas em relação ao ano de 2019 (Hossri, 2021). Além disso, também foi observado um aumento na venda e uso de medicamentos psiquiátricos durante a pandemia. Segundo dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF, 2021), de 2019 para 2020, o número de unidades vendidas de antidepressivos e estabilizantes de humor foi de 56,3 milhões para 64,1 milhões.


Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) e de outras pesquisas internacionais apontam que em outros países, como Bélgica, China, Estados Unidos, Itália, Macedônia, Montenegro, Reino Unido e República Tcheca, também se constataram variações. Na China, ocorreu um aumento no consumo de risco e prejudicial de álcool e tabaco; em Montenegro verificou-se maior procura por medicamentos para controle da dor, como a buprenorfina; nos Estados Unidos, Itália e Reino Unido observou-se maior procura por fentanil e drogas sintéticas; e na República Tcheca houve aumento de uso de fentanil – opioide mais potente que heroína e morfina – devido à escassez de heroína, além de outras substâncias ilícitas ou de uso restrito. Uma maior prevalência de uso simultâneo de substâncias, como a combinação de álcool e benzodiazepínicos, também foi observada (Ahmed et al., 2020; Koopmann et al., 2020; Sun et al., 2020; UNODC, 2020a; UNODC 2020b). De acordo com o UNODC (2021), o contexto pandêmico, caracterizado por (1) impactos socioeconômicos e aumento da pobreza e do desemprego; (2) ampliação das desigualdades; (3) potencialização das vulnerabilidades às quais as pessoas estavam expostas; e (4) pelos possíveis efeitos adversos à saúde mental, pode predispor os indivíduos a padrões de uso de substâncias mais elevados e/ou prejudiciais, com potenciais danos sociais e à saúde de indivíduos e coletividades.


Apesar das variações e da inconclusividade dos dados atuais sobre os padrões de uso de substâncias durante a pandemia de COVID-19, é possível concluir a respeito da necessidade de maior atenção e cuidado às pessoas que usam drogas (FIOCRUZ, 2020b). Em curto prazo, diante das adversidades impostas pela pandemia, o comportamento de usar drogas pode exercer a função de fuga e esquiva das dificuldades e do sofrimento vivenciado neste período. Porém, em longo prazo, no caso de uso excessivo, de risco ou prejudicial, são diversos os potenciais riscos e danos sociais e à saúde (Meherali et al., 2021). Por essa razão, é necessária a implementação de estratégias de detecção precoce de problemas relacionados ao uso de substâncias e a formulação de políticas públicas e intervenções educativas, preventivas e promotoras de saúde em diferentes contextos, que sejam adaptadas à nova realidade e às demandas e necessidades dos indivíduos e comunidades.


 

SOBRE OS AUTORES:


Richard Alecsander Reichert: Doutorando em Psicobiologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pesquisador na área de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7744495824597038


Vitória da Cunha Pedruzzi: Graduanda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).


Denise De Micheli: Doutora em Psicobiologia e Pós-Doutora em Ciências. Professora Associada da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2246867228137055

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