top of page

A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO BASEADA EM MINDFULNESS NA SAÚDE

“Preciso estudar... Preciso fazer ginástica… Preciso comer direito… Preciso dar mais atenção para meus filhos… Preciso… Preciso”. Essa é a fala de todos nós. Será que você não precisa parar um pouco e pensar em você? Meditar pode ser uma forma de tentarmos uma interiorização. Isabel Weiss, no seu texto “A prática da meditação baseada em Mindfulness na Saúde” nos apresenta essa possibilidade. Isabel é uma especialista, com uma rica experiência profissional. Leia o texto de Isabel no nosso Blog. Pare um momento para ler e outro para comentar essa preciosidade de experiência.



O reconhecimento da prática de meditação como recurso auxiliar na promoção da saúde e na prevenção de doenças é muito antigo, milenar, na verdade.


Porém, até bem pouco tempo atrás estas práticas não eram reconhecidas do ponto de vista da ciência e, em nosso país havia muito preconceito a este respeito. Havia uma grande distância entre o que era científico e as práticas contemplativas de modo geral. A terminologia utilizada era “terapias alternativas” e ficou carregada de preconceito e estigma. Tanto praticantes quanto instrutores destas terapias eram chamados de “zen”, “bicho grilo”, "alternativos”, dentre outros apelidos pejorativos.


No entanto, muitas destas práticas ditas alternativas, como yoga, acupuntura e meditação, por exemplo, na verdade foram se mostrando complementares aos tratamentos convencionais para diversas doenças demonstrando eficácia e efetividade no que se propunham e principalmente começaram a se mostrar como um caminho muito profícuo para a manutenção do bem-estar e do equilíbrio, tornando-se uma ferramenta de auto-cuidado e auto-conhecimento capaz de prevenir recaídas em padrões disfuncionais de comportamento que viriam a influenciar sobremaneira a saúde integral.


Estas práticas começaram a serem testadas empiricamente e as pesquisas começaram a corroborar o que o senso comum já sabia, ou seja, elas não somente promovem amplos benefícios, como têm pouca contraindicação, são passíveis de serem testadas na ciência e os estudos são capazes de serem replicados, o que confere cientificidade às mesmas.


As terapias alternativas ganham o reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e também ganham uma nomenclatura mais próxima do que realmente representam. Alternativas elas seriam se fossem substitutivas às práticas da medicina convencional, mas na verdade elas são complementares e integram desde 2006 o “campo das práticas integrativas e complementares”.


Surge o interesse e o empenho de pesquisadores de renomadas universidades pelo mundo afora em pesquisarem sobre uma prática de meditação específica, baseada em Mindfulness. Uma palavra e um conceito de origem budista que foi traduzida no Brasil por “atenção plena”, que engloba um amplo constructo do qual participam um traço, um estado mental, uma técnica, uma filosofia de vida, uma habilidade.


Mindfulness diz respeito a agir com intencionalidade, com consciência e numa atitude voltada a manter a mente no momento presente, em contrapartida à mente que vagueia entre passado e futuro, que tende a depressão e/ou ansiedade. Temos níveis de mindfulness basais, com o qual já nascemos (traço) e ele pode ser treinado (estado), desenvolvendo uma espécie de performance mental a qual se torna disponível à mente consciente e tem efeito duradouro.


Pesquisas envolvendo neuroimagem demonstraram ao longo dos anos que a prática regular desta meditação tem efeitos sobre o cérebro de curto, médio e longo prazo, podendo proporcionar mudanças funcionais (curto e médio prazo) e anatômicas (longo prazo) entre meditadores regulares, exibindo cérebros 25 anos mais jovens entre meditadores de 50 anos de idade.


Mindfulness, especificamente, ganhou o olhar da ciência quando no início da década de 80, nos Estados Unidos, o médico e já meditador Jon Kabat-Zinn, da Universidade de Massachusetts, diretor fundador da Clínica de Redução do Estresse daquela universidade, resolve elaborar um protocolo de pesquisa baseado em meditação Mindfulness como complementar ao tratamento convencional para pacientes que sofriam de dores crônicas e estresse.


Dr Jon Kabat-Zinn criou o programa Mindfulness-based Stress Reduction (MBSR - Redução do Estresse baseado em Mindfulness) a partir do sucesso obtido com os pacientes que receberam a meditação e tiveram suas dores e estresse atenuados e seu arsenal de possibilidades de enfrentamento dos mesmos ampliado. Este programa foi consagrado nos anos seguintes e outros pesquisadores/clínicos começaram a adaptar o protocolo do MBSR para outras doenças.


Numa parceria de pesquisa surgiu em seguida o Mindfulness-based Cognitive Therapy (MBCT – Terapia Cognitiva baseada em Mindfulness). O MBCT foi desenvolvido por Segal, Williams e Teasdale, pesquisadores/clínicos das Universidades de Toronto e Oxford que receberam a missão de desenvolverem um programa que cuidasse dos resíduos da depressão em pacientes tratados com método convencional padrão ouro: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) + Medicamentos.


O MBCT logrou êxito ao ser testado e já há muitos anos foi incluído no protocolo de tratamento para transtornos de humor no Reino Unido (no Sistema Público de Saúde de lá) e nos Estados Unidos.


Um dos mais importantes resultados obtidos com o MBSR e o MBCT foi a mudança na forma com que os pacientes passaram a lidar com seus pensamentos. Numa posição metacognitiva desenvolvida com o treinamento, os mesmos passam a conseguir manter uma posição em perspectiva e passam a lidar com os pensamentos como eventos mentais e não mais como a expressão da realidade o tempo todo.


Este mecanismo passa a ser determinante na manutenção da saúde mental e do equilíbrio, uma vez que não mais imersos e acreditando piamente no que pensam, as pessoas podem reavaliar as situações, ressignificarem e reatribuírem valores.


Exemplificando isso, na depressão, a tendência dos pensamentos é de serem negativos, negativizando até mesmo experiências positivas, como receber um elogio. Na ansiedade, a tendência é de os pensamentos serem catastróficos, mesmo não havendo nenhuma evidência de que algo vai dar errado. E a pessoa que está adoecida fica vulnerável a este mar de pensamentos e o corpo acaba por reagir a tudo isso como se fosse uma realidade a ser enfrentada, liberando hormônios de estresse e retroalimentando a cadeia disfuncional.


Estas mudanças operam no organismo como um todo, melhorando a forma de lidar com os desafios da vida, melhorando a saúde e a imunidade, prevenindo recaídas na ansiedade, depressão, compulsões, melhorando o enfrentamento ao estresse e o foco de uma maneira geral.


Dentre os programas pioneiros em Mindfulness que foram amplamente testados e estão disponíveis na área da Saúde, sendo conduzidos por instrutores treinados certificados internacionalmente e experientes em clínica e em pesquisa, está o programa Mindfulness-based Relapse Prevention (MBRP – Prevenção de Recaída Baseada em Mindfulness.


Da mesma forma que o MBSR e o MBCT, o MBRP foi idealizado e testado cientificamente por pesquisadores/clínicos da Universidade de Washington (Seattle – Estados Unidos), pelo renomado e saudoso Alan Marlatt, o grande criador do modelo de Prevenção de Recaídas que foi e ainda é muito empregado para tratamento de comportamentos compulsivos, em especial para tratamento de pacientes que abusam de substâncias.


Represento o MBRP no Brasil, juntamente com outros pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde em 2016 defendi o doutorado com a pesquisa de efetividade e eficácia, testando e adaptando o MBRP para a realidade brasileira num ensaio clínico randomizado, tendo a colaboração da pesquisadora responsável pelo MBRP após a morte do Marlatt, a Dra Sarah Bowen. Você encontra as referências deste estudo aqui abaixo.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


Brito, M. J. A., Mariani, M. M. C., & Tavares, H. (Eds.). (2021). Corporalidade e Saúde Mental: clínica dos conflitos mente-corpo. Editora Manole.


Davidson, R. J., Kabat-Zinn, J., Schumacher, J., Rosenkranz, M., Muller, D., Santorelli, S. F., Urbanowski, F., Harrington, A., Bonus, K., & Sheridan, J. F. (2003). Alterations in brain and immune function produced by mindfulness meditation. Psychosomatic Medicine, 65(4), 564-570. https://doi.org/10.1097/01.psy.0000077505.67574.e3


Rohde, C. B. S., Mariani, M. M. C., & Ghelman, R. (Eds.). (2021). Medicina Integrativa na Prática Clínica. Editora Manole.


Smigielski, L., Scheidegger, M., Kometer, M., & Vollenweider, F. X. (2019). Psilocybin-assisted mindfulness training modulates self-consciousness and brain default mode network connectivity with lasting effects. NeuroImage, 196, 207-215. https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2019.04.009


Weiss de Souza, I. C. (Ed.). (2020). Mindfulness e Terapia Cognitivo-Comportamental. Editora Manole.


Weiss de Souza, I. C., Kozasa, E. H., Bowen, S., Richter, K. P., Sartes, L. M. A., Colugnati, F. A. B., & Noto, A. R. (2020). Effectiveness of Mindfulness-Based Relapse Prevention Program as an Adjunct to the Standard Treatment for Smoking: A Pragmatic Design Pilot Study. Nicotine & Tobacco Research, 22(9), 1605-1613. https://doi.org/10.1093/ntr/ntaa057


 

SOBRE A AUTORA:


Isabel Cristina Weiss de Souza: Psicóloga clínica, Mestre em Saúde Coletiva (UFJF) e Doutora em Ciências (UNIFESP), autora de livros e artigos em sua área de atuação, atuou no SUS entre 1992-2008, é diretora do Espaço Terapêutico Dra. Isabel Weiss e Professora em Pós-graduação do Hospital Israelita Albert Einstein.

180 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page