DO FUJÃO PARA O MAIKE: EXPERIÊNCIAS PSICANALÍTICAS E REFLEXÕES SOBRE ABANDONO E CUIDADOS
- Marcela Casacio Ferreira Teixeira e Alice Lewkowicz
- há 10 horas
- 5 min de leitura
Marcela e Alice são duas psicanalistas que nos apresentam um trabalho realizado no Ateliê 5 do SOS Brasil Psicanálise.
Em 8 sessões, atendendo em terapia analítica grupal, aos cuidadores de um SAICA, nos apresentam TIAGO e MAIKE.
Tiago, um menino abandonado, como muitos outros no nosso país.
Maike, um boneco que ajuda Tiago a procurar seu lugar no mundo
Vejam aqui a riqueza deste trabalho.
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No Brasil, há mais de 34 mil crianças e adolescentes em acolhimento, números de 2025 que revelam a amplitude de uma questão social que ultrapassa a carência material: trata-se de crianças e adolescentes que perderam suas famílias e os vínculos simbólicos que sustentam sua constituição como pessoa. A família, núcleo estruturante dentro do macrocosmo social, deveria ser o primeiro continente psíquico da criança — o lugar de sustentação emocional e de processos de simbolização primária. É nesse espaço que se funda a experiência de pertença, de trocas psíquicas, intra e intersubjetivas, de confiança básica, fundamentais para a constituição pessoal.
Apresentaremos reflexões a partir de uma experiência psicanalítica com um grupo de cuidadores de casas de acolhimento recebido no SOS Psicanálise. Do encontro, conhecemos um menino que nos mobilizou intensamente e permitiu pensar em dores e movimentos psíquicos que atravessam não somente crianças brasileiras em situação de acolhimento, como os cuidadores que as recebem e nós, cuidadores dos cuidadores.
Tiago e seu mundo selvagem
Tiago é uma das crianças acolhidas. Vive a dor de não ter uma casa e uma rede familiar. Seu pai desapareceu e sua mãe estava impossibilitada de cuidar dele. Sem condições também por parte dos avós, a Justiça determina que Tiago seja acolhido enquanto as alternativas são buscadas. Um menino às portas da pré-adolescência com necessidades e demandas de um menino-bebê.
Os educadores ao recebê-lo ficaram com os ‘cabelos em pé´. Ele seduzia outras crianças a acompanhá-lo em travessuras e pequenas transgressões. A casa foi se tornando emocionalmente incendiada — educadores sentindo raiva, impotência, e até um tipo de sadismo latente, como se o menino ativasse o pior e o mais frágil em cada um.
Tiago carece de vínculos familiares. Um menino criado na selva das ruas brasileiras, habitando um mundo onde a sobrevivência substitui o afeto e onde a violência é a linguagem predominante. A capacidade de confiar fica prejudicada; a agressividade e a transgressão não são “desvios”, mas tentativas desesperadas de comunicar a precariedade do vivido.
Um ponto dolorido: as tentativas de evasão dessas crianças das casas de acolhimentos. Tristeza profunda acompanhar uma criança que não tem destino certo, não tem uma casa para ir, mas deseja impulsivamente sair da casa. Essa é uma realidade recorrente, muitos desaparecem e passam a sobreviver como podem na “selva de pedra”. Por que uma criança deseja correr do lugar que a acolhe? É nas casas de acolhimento que as crianças irão transitar, sem palavras, e atuar emoções da maneira mais radical possível. Quando o ambiente não suporta o impacto emocional dessas atuações, surge o risco de transformar o cuidado em punição e a escuta em reação não pensada. Por isso, a importância e a responsabilidade de preparar aqueles que acolhem as crianças e adolescentes não apenas no âmbito informativo acerca de processos maturacionais e educativos - mas fundamentalmente pelo processo de sensibilização afetivo-emocional dos membros da casa, visando transformações a partir de seus próprios recursos emocionais.
Em uma saída de Tiago para atividades externas, foi possível observar o que chamamos de tentativas esperançosas de recuperar algo que foi privado. Tiago pegou objetos que não eram dele e o grupo viu, levando-o a devolver. Quando roubou, estava em ato dizendo que era naquele ambiente que ele poderia ter de volta o que precisava. Se há um contorno que o escute, de modo apurado, a figura geralmente adulta torna-se um “outro terceiro” capaz de interceptar as necessidades da criança. Esta é a função que em situações saudáveis a família realiza, escutando, para além do ato em si, as necessidades da criança. Estabelece-se assim uma responsabilidade grande para os cuidadores: escutar tal demanda vinda tortuosamente construída. Tiago rouba testando a capacidade do ambiente de sobreviver à sua destrutividade. Mas onde há violência, reforça-se o ciclo do abandono.
Pensamos no menino fujão, adjetivo ofensivo que remete a sentidos históricos e inconscientes. No Brasil escravocrata, o termo “fujão” era usado para designar o escravo que escapava de seu senhor — aquele que, mesmo sob o risco de castigos atrozes, ousava resistir à submissão. O fujão, portanto, carrega em si um gesto de rebeldia vital, uma tentativa de preservar algo da liberdade psíquica diante da opressão.
Em seu trabalho Lo insoportable em las instituiciones de proteccion a la infância, Carmen Rodrìguez descreve como podemos identificar a saúde em situações de evasão institucional, sim evasão e não fuga. Uma luta por resistência à escravidão moral?
O que é saúde em um ambiente de acolhimento? Do ponto de vista dos trabalhadores e educadores do setor, a criança está recebendo o que pode e eles estão dando o melhor de si, afinal, a família a abandonou. Indubitavelmente, este ambiente precisa acolher a criança da melhor forma possível, mas qual é o ponto de vista de uma criança “sugada” pelos abrigos? Tiago não foge apenas da casa, mas de tudo o que representa o aprisionamento de sua subjetividade. Uma resistência ao apagamento de si – aqui trataria de um ato esperançoso? A experiência afetiva seria para ele uma invasão?
As crianças acolhidas precisam receber algo maior do que cuidados básicos, alimentação, escola e roupa limpa: estabelecimento de conexão emocional é fundamental. A casa de acolhimento precisa ter abertura de um espaço que construa com as crianças vínculos significativos, mesmo que seja por um dia. Resta a nós questionar por que os aparatos do país destinados aos cuidados infantis não conseguiram construir condições mais robustas de suporte.
Maike surge e a esperança também
Tiago evade, volta ao abrigo e se rebela. Eu quero ir embora, quero estar com os meus amigos –seus conhecidos da rua. Transgride, desafia, não foca, provoca, perturba, grita, grita, se agita, não dorme. Aqui podemos encontrar verbos que definiriam psicopatologias dos manuais psiquiátricos contemporâneos. Faz sentido?
Os educadores resistem. Olham para ele, conversam, abraçam, se irritam, são afetados, mas não desistem. Impõem castigos, às vezes desnecessários, e o dia recomeça, com todas essas vivências turbulentas novamente. Afetam-se pela dor, sem saberem muito bem, mas se conectam com um menino que grita, chora e não sabe falar que sofre. Vamos narrando tal trajetória com o grupo, tentando entrelaçar emoções, afetos e realidade. Todos nós sofremos, o grupo de educadores, funcionários, as outras crianças, nós psicanalistas e parte da sociedade consciente de nossos infortúnios.
Surge então Maike. Um bicho de pelúcia que estava lá entre outras pelúcias e é adotado por Tiago. Tia, cadê o Maike? Ele pergunta quando retorna ao quarto da casa e não o vê. Um objeto subjetivo, mas também objetivo começa a ser compartilhado na casa de acolhimento. Uma possibilidade de transitar entre o mundo psíquico e a realidade, construindo assim seu próprio mundo, nos enche de esperança. Vínculos novos são possíveis na sustentação de um ambiente capaz de pensar o indizível.
A sensibilidade circula entre nós. Os educadores encontraram Tiago com Maike.
Encontraram o Maike do Tiago. Tiago encontrara Maike, objeto que poderia compartilhar com ele seu mundo na casa. Uma preciosa possibilidade de inserir na linguagem humana das trocas e dos afetos, um menino Mogli, do primitivismo reativo da evasão para uma experiência de ter e ser Maike, alguém que é de alguém.
REFERÊNCIA:
Rodríguez, C. (2016). Lo insoportable nas instituições de proteção à infância (2ª ed.). Editorial Azafrán.
SOBRE AS AUTORAS:
Alice Lewkowicz: Psiquiatra, Psicanalista da SPPA, Membro do SOS Brasil Psicanálise.
Marcela Casacio Ferreira Teixeira: Psicóloga, Psicanalista, Membro da SBPCamp, Pós-Doutora em Psicologia Clínica, Membro Cowap-IPA e SOS Brasil Psicanálise.




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