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OS MANICÔMIOS ACABARAM OU SÓ MUDARAM DE NOME? ENTRE AVANÇOS E PERMANÊNCIAS: DESAFIOS ATUAIS DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Os manicômios acabaram ou só mudaram de nome?

 

Assim começa o texto de Letícia, com essa pergunta para cada um de nós.

 

Perguntamos também: dentro de nós efetivamente aceitamos o “louco” sentado ao nosso lado? Ou ainda tememos a loucura porque ela pode nos “contagiar”?

 

Leia o texto da Letícia e pense na sua forma de contribuição ou entrave para a efetivação desta mudança.

 

Escreva sua opinião, ela é preciosa para nós.



A Luta Antimanicomial nasceu como denúncia e ruptura. Denúncia de um sistema que transformava sofrimento em exclusão, diferença em perigo e pessoas em corpos descartáveis. Os manicômios foram dispositivos de silenciamento, onde a loucura era afastada do olhar social, trancada, medicada e esquecida. Eram verdadeiros depósitos humanos, sustentados por uma lógica de controle, higienização e medo.

 

A Reforma Psiquiátrica representou um avanço histórico. Fecharam-se portas, abriram-se outras: os serviços territoriais, os CAPS, a ideia de cuidado em liberdade e o reconhecimento dos direitos das pessoas.

 

Mas, se os manicômios acabaram, por que ainda precisamos lutar contra eles?

 

Talvez porque não tenham acabado de fato. Talvez tenham apenas mudado de forma. Os manicômios contemporâneos já não se apresentam, necessariamente, como grandes instituições fechadas, com grades visíveis. São mais sutis, mais difusos, mais socialmente aceitos. Podem existir, inclusive, em espaços que foram criados para superá-los.

 

Quando o cuidado se torna burocrático, repetitivo e sem projeto singular, há algo de manicomial ali. Quando um serviço acolhe, mas não se implica; escuta, mas não constrói caminhos; mantém, mas não transforma, há algo que se aproxima da lógica de contenção, ainda que sem muros.

 

Quando os CAPS estão superlotados, pouco articulados com o território e com baixa capacidade de intervenção intersetorial, e quando sujeitos e profissionais constroem vínculos de dependência, corre-se o risco de produzir um espaço de cronificação do cuidado, sem direção.

 

Quando “comunidades terapêuticas” operam sob regimes de isolamento, disciplina rígida e afastamento prolongado da vida social, é legítimo perguntar: estamos diante de cuidado ou da reedição de um velho modelo, agora com outra linguagem?

 

Quando abrigos e dispositivos de acolhimento social retiram pessoas das ruas, mas não constroem caminhos de autonomia, pertencimento e circulação social, o que está sendo produzido ali? Proteção ou apenas outra forma de confinamento socialmente tolerado?

 

Se antes o manicômio era um lugar, hoje ele pode ser uma lógica. Uma lógica que se infiltra quando o cuidado perde sua dimensão política; quando o sujeito deixa de ser protagonista; quando a diferença volta a ser tratada como algo a ser corrigido, e não compreendido; quando o olhar reduz o sujeito ao diagnóstico. Porque já não depende, necessariamente, de muros altos, portas trancadas ou isolamento físico evidente.

 

Práticas manicomiais podem funcionar de portas abertas e podem nascer, também, do modo como trabalhamos. Equipes exaustas, sobrecarregadas, sem espaço de reflexão, com pouca sustentação institucional e escassas possibilidades de formação contínua tendem, muitas vezes sem perceber, a operar no limite entre o cuidado e o controle. Nesses contextos, o risco não é apenas a precarização do trabalho, mas a reprodução de práticas que reduzem o sujeito, simplifica o sofrimento e buscam respostas rápidas para situações complexas.

 

Diante disso, na atualidade, a Luta Antimanicomial talvez precise ser reposicionada. Não apenas como uma luta contra os manicômios do passado, nem somente contra as “comunidades terapêuticas”, mas como uma vigilância constante frente às suas novas formas de existência e contra toda forma de exclusão disfarçada de cuidado. E, principalmente, como uma luta a favor de algo: a favor de um cuidado que produza autonomia; de vínculos que não apenas acolham, mas transformem; de práticas que sustentem o sujeito em sua complexidade e não o reduzam à sua crise; de um cuidado que seja sustentável tanto para quem o oferece quanto para quem o recebe. Atualizar o sentido da Luta Antimanicomial é reconhecer que ela não terminou, apenas mudou de campo.

 

Outra forma de produção de práticas manicomiais, mais sutil e, por isso mesmo, mais difícil de identificar, é a institucionalização. Serviços que não retiram o sujeito do território, mas o mantêm girando em circuitos restritos, com baixa potência de transformação; espaços onde as pessoas circulam, mas não avançam, não constroem autonomia; onde permanecem por anos com Projetos Terapêuticos Singulares sem avaliação contínua ou resolutividade; onde há permanência indefinida, sem construção de processos de alta ou ampliação de possibilidades de outros modos de vida.

 

Hoje, talvez, o maior risco não seja o retorno explícito dos antigos manicômios, mas sua permanência disfarçada em práticas naturalizadas, pouco questionadas e institucionalmente aceitas. Por isso, mais do que comemorar uma data, é preciso questionar: onde, hoje, ainda estamos produzindo exclusão em nome do cuidado? E ter a honestidade de reconhecer que, às vezes, a resposta pode estar mais perto do que gostaríamos pois nenhuma lei, por si só, é capaz de impedir práticas manicomiais.

 

A lógica manicomial pode se reinstalar sempre que o cuidado perde sua dimensão ética, relacional e política. Por isso, talvez, a Luta Antimanicomial no presente, exija mais do que a defesa de dispositivos ou a memória de conquistas passadas. 

 

Exija vigilância sobre o que estamos fazendo, aqui e agora.


SOBRE A AUTORA:


Letícia Felipe Passeri: Terapeuta Ocupacional tecida no cotidiano do SUS e da RAPS há 21 anos. Com diversas formações e especializações ao longo da trajetória, tem como principal referência de estudo e prática clínica o Método da Terapia Ocupacional Dinâmica. Atua no cuidado em saúde mental em CAPS AD III e consultório particular.

 
 
 

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