HUMANIZAÇÃO PARA OS SUJEITOS, DESUMANIZAÇÃO PARA OS TRABALHADORES?
- Letícia Felipe Passeri
- 20 de mar.
- 3 min de leitura
“O profissional não é apenas um instrumento do serviço, ele também é alguém que precisa de condições para exercer seu trabalho de forma ética e sustentável”.
Esta é uma das frases da nossa autora do texto: “HUMANIZAÇÃO PARA OS SUJEITOS, DESUMANIZAÇÃO PARA OS TRABALHADORES?”
Letícia nos mostra, no seu precioso texto, como a Política Nacional de Humanização esqueceu de considerar a humanidade do trabalhador.
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A ideologia não pode sacrificar silenciosamente a realidade do trabalhador. Sabemos que a Política Nacional de Humanização foi (é) fundamental, pois durante muito tempo usuários de serviços de saúde, especialmente na saúde mental, foram (são) tratados de forma impessoal, autoritária, negligente e desumana. Humanizar o cuidado significou afirmar que o sofrimento humano precisa ser escutado e considerado, sem barreiras.
Porém, um fenômeno paradoxal existe, mas às vezes parece invisível: um novo tipo de desumanização dirigida aos próprios profissionais. Quando o foco é o acolhimento de excelência, no que se refere à disponibilidade, disposição técnica e ética para escutar, atender, cuidar da crise, ajudar na regulação emocional do outro, compreender complexidades psicossociais, avaliar demandas e necessidades e outros sofrimentos, mas não são oferecidas condições concretas de trabalho – equipes suficientes, tempo adequado e organização das demandas – cria-se uma situação em que o sofrimento dos usuários é reconhecido, mas o sofrimento dos trabalhadores é silenciado e se torna invisível.
O profissional não é apenas um instrumento do serviço, ele também é alguém que precisa de condições para exercer seu trabalho de forma ética e sustentável. Nesse ponto, surge uma distorção do próprio conceito de humanização. Profissionais de saúde também possuem limites físicos, emocionais, técnicos e institucionais. O discurso político ou institucional não condiz com a prática real que é muitas vezes caótica, revelando o esgotamento dos trabalhadores que tentam sustentar esses encontros diariamente. Diante da sobrecarga e das dificuldades do cotidiano, as tensões começam a aparecer dentro da própria equipe. Passamos a criticar colegas, dizendo que determinados profissionais não acolhem, são rígidos ou punem os pacientes. Algumas categorias profissionais são os principais alvos sendo vistos como responsáveis pelos problemas do cuidado. Situação que pode novamente esconder o problema que envolve as condições inadequadas de organização e gestão do trabalho. Porém, esquecemos que trabalhadores submetidos a níveis elevados de sobrecarga e esgotamento tendem a apresentar redução na capacidade de atenção, na qualidade da escuta e na tomada de decisões clínicas, o que pode comprometer a qualidade do cuidado ofertado. Importante pontuar que o fato de alguns trabalhadores “resistirem” a estes fenômenos não revela que tais situações podem ser compatíveis a um ambiente de trabalho saudável.
Diante desse cenário, torna-se necessário reconhecer que os recursos institucionais e humanos são finitos e que o ideal proposto pelas políticas públicas frequentemente encontra limites nas condições concretas de trabalho. Profissionais não dispõem de tempo ilimitado nem de capacidade infinita para absorver todas as necessidades e demandas no momento em que surgem. A espera, a frustração e a necessidade de aguardar, e às vezes aguardar o amanhã, também fazem parte do cuidado real. Construir limites claros nas relações de trabalho e de cuidado torna-se parte fundamental da prática em saúde, estabelecendo combinados entre profissionais, equipes e usuários. Reconhecer limites não significa abandonar o ideal de humanização, tampouco representa negligência.
Humanizar o cuidado também significa sustentar práticas de cuidado que sejam viáveis, responsáveis e duradouras, preservando tanto o acesso dos usuários quanto as condições de trabalho das equipes, podendo tornar o cuidado possível dentro das condições existentes.
SOBRE A AUTORA:
Letícia Felipe Passeri: Terapeuta Ocupacional tecida no cotidiano do SUS e da RAPS há 21 anos. Com diversas formações e especializações ao longo da trajetória, tem como principal referência de estudo e prática clínica o Método da Terapia Ocupacional Dinâmica. Atua no cuidado em saúde mental em CAPS AD III e consultório particular.




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