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O MANEJO DE EMOÇÕES E DO ESTRESSE COMO FORMA DE PREVENIR O USO ABUSIVO DE ÁLCOOL NA ADOLESCÊNCIA: RESULTADOS DE PESQUISA

Thais nos apresenta um artigo que contém uma pesquisa com 644 jovens de 14 a 18 anos - a maioria de escolas públicas.


Só esse número de jovens escutados nesta pesquisa já torna os dados valiosíssimos!


Mas Thais vai muito além, examinando a diferença de consumo de álcool entre os meninos e as meninas.


Examina um tipo de consumo, o binge drinking - consumo excessivo em curto intervalo, e discute estratégias de prevenção.


O artigo de Thaís é uma grande oportunidade para pensarmos e conhecermos mais sobre essa questão.


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Seja no senso comum ou no âmbito acadêmico, a adolescência tende a ser associada a aspectos negativos do ciclo de vida. De forma geral, são enfatizados temas como mudanças de humor, afastamento da família e maior exposição a comportamentos de risco, sobrando pouco ou nenhum espaço para o debate a respeito das potencialidades dessa fase. Se o ato de adolescer consiste em um importante período do desenvolvimento humano, não seria através do favorecimento dessas potencialidades que poderíamos pensar em ações que, para além do foco em doenças, de fato fossem promotoras de saúde desses sujeitos? Foi através de perguntas como essa que construí minha pesquisa de mestrado, a qual apresentarei de forma resumida nas próximas linhas.


A adolescência como uma fase marcada por mudanças biológicas, físicas, psicológicas e sociais que, quando bem amparadas, podem favorecer a vivência de experiências relevantes para a formação de uma identidade pessoal, influenciando todo o resto do ciclo de vida. No geral, o sujeito adolescente tende a priorizar interações com seus pares em detrimento de outras, questionar padrões familiares anteriormente entendidos como verdades absolutas, repensar gostos e estilos, dentre outras modificações cognitivas e comportamentais. É nesse ponto que a exposição a situações de risco pode tornar-se mais facilitada, como é o caso da experimentação e do uso continuado de álcool e outras drogas.


No Brasil, o consumo de álcool tende a ocorrer de maneira exacerbada, envolvendo a ingestão de um alto número de doses em uma mesma circunstância. Esse padrão de uso, também chamado de binge drinking - consumo de seis ou mais doses de álcool em uma única ocasião - está relacionado a desfechos negativos em saúde (Lannoy et al., 2021). No caso dos adolescentes, o binge drinking é ainda mais preocupante, visto que está associado a um maior chance de consumo abusivo na idade adulta, à complicações no desenvolvimento neurocognitivo e à exposição a comportamentos sexuais de risco, por exemplo (World Health Organization [WHO], 2024). No entanto, entendendo que o álcool é uma substância culturalmente aceita no Brasil e cujo uso tende a ser socialmente valorizado, torna-se relevante que as políticas de prevenção abarquem a lógica de que a abstinência pode não ser o foco central de todos os adolescentes. Ao contrário, fatores como o desejo de se sentir adaptado socialmente, de aliviar o tédio e de lidar com seus afetos podem soar mais significativos para esse público, favorecendo o consumo de álcool. Por compreender que o trabalho exclusivamente voltado para a abstinência pode, em muitos casos, afastar os adolescentes que não sentirem-se acolhidos nos serviços de saúde, defende-se que o foco das ações deve ser direcionado a minimizar os desfechos negativos relacionados ao uso abusivo dessa substância mesmo por aqueles que não querem ou não conseguem fazer da abstinência uma alternativa viável.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresenta o Programa de Habilidades de Vida (HV) como uma opção para a promoção da saúde e prevenção do uso abusivo de álcool e outras drogas por adolescentes. As HV subdividem-se em habilidades cognitivas, emocionais e afetivas, englobando autoconhecimento, pensamento criativo, tomada de decisão, pensamento crítico, manejo de sentimentos e emoções, empatia, manejo do estresse, relações interpessoais, comunicação assertiva e resolução de problemas (WHO, 1997). As ações não precisam necessariamente focalizar todas as habilidades de uma só vez, tendo em vista que as HV são constructos que se complementam e se reforçam à medida em que são desenvolvidos (Ronzani et al., no prelo).


A pesquisa aqui relatada centrou seus esforços na habilidade de manejo de emoções e do estresse. O objetivo foi estimar os efeitos diretos e indiretos do gênero e da idade sobre o binge drinking, a partir da mediação de tal habilidade. Para tanto, participaram 644 adolescentes de 14 a 18 anos, estudantes do Ensino Médio de instituições localizadas no sudeste brasileiro, sendo 85,8% escolas públicas. Para que pudessem ser realizados os procedimentos estatísticos adequados, a amostra precisou ser dicotomizada entre os gêneros mulher cis (55,6%) e homem cis (44,4%) o que, já de antemão, representa uma limitação do presente estudo, tendo em vista os impactos relacionados ao uso abusivo de álcool entre adolescentes que não se identificam como cis. Todos os procedimentos éticos foram atendidos.


A partir da aplicação do Test de Habilidades para la Vida - Versão brasileira (THV), bem como de um questionário sociodemográfico elaborado pela equipe e do Alcohol Use Disorders Identification Test - Versão abreviada (AUDIT-C), foi realizada uma análise de mediação por meio de modelagem de equações estruturais (SEM), indicando um bom ajuste do modelo. Os resultados indicaram que à medida que a idade aumenta, aumenta-se a chance de se praticar binge drinking, o que se mostra coerente ao se considerar que o aumento da idade implica em uma maior facilidade de acesso a essa substância por parte dos adolescentes, bem como em uma maior autonomia diante de decisões relacionadas à saúde (Teixeira et al., 2022).


Além disso, as análises indicaram que as meninas apresentaram um consumo de álcool superior ao dos meninos. Embora contrário ao que se espera no senso comum, esse resultado está de acordo com a literatura da área, que aponta para um maior crescimento no consumo de álcool por meninas quando comparado ao consumo dos meninos nos últimos anos (CISA, 2023; Dumas et al., 2020; Gardner et al., 2022). Nesse sentido, ao reconhecermos a relevância das conquistas feministas por igualdade de direitos entre homens e mulheres, é válido questionar: no que se refere ao uso de álcool, tal aumento entre as mulheres estaria relacionado à absorção de papéis patriarcais por parte deste grupo? Ou ainda, seria a exaustão feminina a maior responsável pelo aumento no uso de álcool por meninas (Díaz Geada et al., 2018; Lemos et al., 2020)? Sem dúvidas, o papel do gênero no aumento do consumo deve ser analisado de forma multifatorial, evitando explicações reducionistas e pouco direcionadas à uma prevenção contextualizada e não moralizante, especialmente ao se considerar os prejuízos relacionados ao uso de álcool de maneira interseccional. Assim, embora a presente pesquisa parte de uma limitação causada pela dicotomização da amostra entre meninas e meninos cis, é fundamental entender os impactos do uso abusivo de álcool a partir de marcadores de gênero, reconhecendo a vulnerabilidade à que adolescentes trans e não binários estão expostos no que se refere à marginalização e precarização da saúde.


Porém, um fato interessante apontado pelos resultados é o de que o gênero não apresentou efeito direto sobre o binge drinking. Ou seja, embora tenha sido observada uma relação entre gênero e tal padrão de consumo, a mesma ocorre a partir da mediação do manejo de emoções e do estresse. Assim, o gênero influencia o manejo de emoções e do estresse, o qual influencia o binge drinking, de forma que uma maior habilidade de lidar com as emoções está associada a um menor consumo problemático de álcool. Embora os resultados não tenham indicado correlação entre a habilidade de manejo de emoções e do estresse e a idade, o que hipotetiza-se, pode estar relacionado com certa homogeneidade no período da adolescência investigado, entende-se que ações de promoção dessa habilidade comecem a ser realizadas o mais cedo possível, de forma a fortalecer os adolescentes antes que o binge drinking se torne uma prática comum em suas vivências.


Portanto, entendendo que o uso de álcool entre adolescentes é uma realidade brasileira, defende-se que ações de prevenção ao uso abusivo dessa substância extrapolem a lógica da abstinência, baseando-se na promoção da habilidades que possam ser protetoras diante dos riscos relacionados ao consumo no padrão binge, como é o caso da habilidade de manejo de emoções e do estresse. Assim, a mera análise de gênero e idade mostrou-se insuficiente para explicar o binge drinking entre adolescentes, sendo necessário considerar o papel mediador do manejo de emoções e estresse nessa relação, visto que esta habilidade, além de ajudar a compreender o consumo binge, trata-se do mecanismo através do qual os efeitos do gênero acontecem.

REFERÊNCIAS:


  1. Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). (2023). Álcool e a saúde dos brasileiros: Panorama 2023 (A. G. de Andrade, Org.). São Paulo, SP: CISA. https://www.cisa.org.br

  2. Díaz Geada, A., Busto Miramontes, A., & Caamaño Isorna, F. (2018). Consumo de alcohol, tabaco y cannabis en adolescentes de una población multicultural (Burela, Lugo). Adicciones, 30(4), 264–270. https://doi.org/10.20882/adicciones.915

  3. Dumas, T. M., Ellis, W., & Litt, D. M. (2020). What does adolescent substance use look like during the COVID-19 pandemic? Examining changes in frequency, social contexts, and pandemic-related predictors. Journal of Adolescent Health, 67(3), 354–361. https://doi.org/10.1016/j.jadohealth.2020.06.018

  4. Gardner, L. A., Debenham, J., Newton, N. C., Speranza, R., Teesson, M., Slade, T., Barrett, E. L., & Champion, K. E. (2022). Lifestyle risk behaviours among adolescents: A two-year longitudinal study of the impact of the COVID-19 pandemic. BMJ Open, 12(5), e060309. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2021-060309

  5. Lannoy, S., Baggio, S., Heeren, A., Dormal, V., Maurage, P., & Billieux, J. (2021). What is binge drinking? Insights from a network perspective. Addictive Behaviors, 117, 106848. https://doi.org/10.1016/j.addbeh.2021.106848

  6.  Lemos, A. H. D. C., Barbosa, A. D. O., & Monzato, P. P. (2020). Mulheres em home office durante a pandemia da COVID-19 e as configurações do conflito trabalho-família. Revista de Administração de Empresas, 60(6), 388–399. https://doi.org/10.1590/S0034-759020200603

  7. Teixeira, C., Barroso, I., Freitas, A., Rainho, C., Monteiro, M. J., & Antunes, C. (2022). Comportamentos aditivos com e sem substância em adolescentes: relação com a idade e o sexo. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (28), 98–111. https://doi.org/10.19131/rpesm.349

  8. World Health Organization. (1997). Life skills education for children and adolescents in schools: Introduction and guidelines to facilitate the development and implementation of life skills programmes. (WHO/MNH/PSF/93.7 A.Rev.2). Geneva: World Health Organization.

  9. World Health Organization. (2024). The adolescent health indicators recommended by the Global Action for Measurement of Adolescent health: Guidance for monitoring adolescent health at country, regional and global levels. Geneva: World Health Organization. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.



SOBRE A AUTORA:


Thaís Soares Pereira: Psicóloga, Mestre e Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com foco na promoção de Habilidades de Vida e prevenção ao uso abusivo de drogas na adolescência. Membro do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (CREPEIA).


 
 
 

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