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POR QUE TANTOS JOVENS SE MATAM?

Hoje vamos falar de MORTE. Sim! Nosso tema é: “POR QUE TANTOS JOVENS SE MATAM?”. Para essa questão apresentamos a Maria Júlia Kovács, que se apresenta com muita simplicidade e singeleza, mas que é uma grande potência, uma grande estudiosa do assunto. A Maria Júlia participa de um grupo chamado “Suicídio nas e das Universidades”, organizado pelos Intercambiantes Brasil - Núcleo SP e Terapeutas Solidários. Seu texto é uma preciosidade! Confira, leia, comente!


Essa pergunta nos assola frequentemente. Qualquer resposta simplista conduz a erros graves. O sofrimento existencial está presente de forma exponencial na vida de jovens, brasileiros e alguns fatores se destacam: desigualdade social, racismo, anomia social chegando a uma quase distopia, questões de gênero, LGBTQUIA+ fobia, falta de perspectivas de futuro, solidão e muitos outros. Todas essas situações, nos últimos anos, acenderam diversos sinais de alerta, entre eles um aumento exponencial de autolesões, adoecimento, ideação suicida e tentativas de suicídio. E a pergunta recorrente é por que o suicídio aparece como caminho para lidar com essas situações? Em 2020 foi declarada a pandemia de COVID-19 com todos os problemas que causou, entre os quais, destacamos o lockdown total por alguns meses, o afastamento das atividades habituais, o distanciamento social, a interrupção de projetos; e a vida passou a ser vivida pelas telas em praticamente todas as atividades. Esse período foi acompanhado de incertezas, medo do contágio, da morte e a incerteza, se algum dia os jovens poderiam voltar ao que consideravam como “normalidade”: a vida com as atividades de escola, com os amigos, nas baladas e o que mais constituía sua vida de relação. Essa situação incensou o sofrimento, que já estava presente no período pré-epidêmico. Atualmente, observamos um aumento do sofrimento, que dificilmente se expressa de forma mais aberta nas relações. Há uma intensificação do uso das redes sociais, dos likes, dos perfis falsos, da não comunicação presencial. A dificuldade de se falar sobre o suicídio está no fato de que se trata de um tema estigmatizado, por ser uma morte violenta e escancarada. Ainda há o equívoco, de que falar sobre suicídio pode levar a novos suicídios. Temos que desfazer vários equívocos, falar sobre o tema de forma cuidadosa e reflexiva não leva ao aumento de suicídios. Pelo contrário, o silenciamento, o tabu frente ao tema causa mais danos, porque ao silenciar o assunto, não se fala do sofrimento, que pode resultar em ações autolesivas e à tentativa de suicídio. É importante lembrar de que não há um suicídio emblemático, de que não há causas genéricas para o evento, embora os desfechos possam ser semelhantes. Então é mais prudente falar em suicídios, porque cada um deles tem uma história, que se inicia em certo ponto e para ser notificado como tal, tem que resultar em morte. O suicídio é um ato realizado por uma pessoa, que é a que morre. Essa questão é muito importante para se refletir sobre a questão da culpa. Não há culpados no suicídio, para o jovem é resposta a uma situação sentida como intolerável. Familiares e amigos não têm culpa pelo ato realizado, sobre o qual, muitas vezes, não tem controle. Quando se considera a intencionalidade, o suicídio pode representar o desejo de morrer, ou a necessidade de eliminar um sofrimento intolerável. Como saber? É o jovem quem vai falar sobre a verdade para ele. Quando está em grande sofrimento, em desespero, e para acabar com essa situação o jovem realiza o ato suicida, como forma de aliviar o sofrimento. Esse ato pode ou não resultar em morte. Se ele não morrer é fundamental estar com esse jovem, compreender suas motivações e ver as formas possíveis de se lidar com seu desespero. A tentativa de suicídio é ponta de um iceberg, que quando se mostra, leva à busca de cuidado. Mas será que devemos esperar a ação suicida se consolidar para cuidar? A falta de comunicação pode levar ao desespero e se a forma escolhida pelo jovem for letal, mesmo que não quisesse morrer, ocorre a fatalidade. A história de um suicídio pode ocorrer a partir do sofrimento intenso e da percepção se a vida vale à pena continuar. Este pode ser um pensamento ocasional ou recorrente. No desespero, pode ocorrer um suicídio impulsivo. Por isso, vemos em jovens, muitas tentativas, algumas resultando em mortes, diferente dos idosos, em que o planejamento das tentativas resulta em morte com maior frequência. O que se observa nessa discussão é a necessidade de abrir os canais de comunicação para conversar sobre o sofrimento, a empatia e a acolhida e criar um espaço de pertencimento e de cuidados. A organização dos cuidados ainda é pouco operante em nosso país. Familiares de jovens em sofrimento não sabem o que fazer diante da ideação e tentativa de suicídio. Profissionais de saúde e educação dizem não estar preparados para lidar com a situação, temem não saber o que fazer e serem processados se ocorrer a morte. Não há políticas públicas que amparem as ações de prevenção e posvenção do suicídio. Há poucos cursos de formação para profissionais cuidarem dos jovens em sofrimento, a maioria deles oferecido por instituições particulares. Ainda não está claro que o sofrimento psíquico, existencial é real, muito frequente e precisa ser olhado com cuidado. Não é um trabalho para amadores, para improvisos, para respostas rápidas, sem fundamento e não depende de força de vontade. Como vimos, são vários os fatores predisponentes, que se combinam em cada história de suicídio, que precisa ser compreendida, acolhida para que se busquem os melhores caminhos para cada pessoa em sofrimento. Famílias precisam de cuidado para acolher seus filhos, professores para oferecer espaços pedagógicos de cuidados, profissionais de saúde precisam estar preparados, não para evitar o suicídio a todo custo, e sim para cuidar do sofrimento dos jovens, seus movimentos de vida e morte e seus caminhos para buscar uma vida digna, de pertencimento em que seus projetos possam ser reconhecidos. Estamos muito longe de evitar todos os suicídios, alguns ainda ocorrerão porque os caminhos de morte são mais fortes. Mas muitos, principalmente aqueles em que o suicídio é uma forma de eliminar um sofrimento intolerável, poderão ser revertidos, e aí poderemos dizer que menos jovens morrerão porque estão sofrendo, porque podem encontrar formas de lidar com a humilhação, com o desamparo, com o não pertencimento, violência e frustração. Esse é um longo caminho ainda a percorrer.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


Fukumitsu, K. O., Kovács, M. J. (2016). Especificidades sobre processo de luto frente ao suicídio. PSICO (PUCRS), 47, 3.

Kovács, M. J. (2013). Revisão crítica sobre conflitos éticos envolvidos na situação de suicídio. Psicologia: Teoria e Prática, 15, 69- 77.

Kovács, M. J. (2019). Suicídio, prevenção e posvenção: análise de políticas públicas de saúde. In B. E. Cabral, L. Szymanski & M. L. S. Schimidt (Eds.), Práticas em pesquisa e pesquisa como prática (pp. 197-214). Curitiba: CRV.


 

SOBRE A AUTORA:


Maria Julia Kovács: Professora Livre Docente Sênior do Instituto de Psicologia da USP, membro fundador do Laboratório de Estudos sobre a Morte.

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