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A REDUÇÃO DE DANOS COMO EXPERIÊNCIA DE VIDA E DE TRABALHO

Angélica inicia seu texto contando sua experiência pessoal com a Redução de Danos. Em seguida passa para sua experiência profissional. Preciosa essa passagem… sair de si, ampliar a visão, não se ver como o modelo do mundo. Esse é um processo de transformação.


Vamos ler o texto! (ele foi escrito em setembro de 2020 e reescrito agora em dezembro de 2025)


Vamos beber da experiência e do pensamento da Angélica para pensarmos nos nossos trabalhos.



Durante a minha adolescência, convivi com muitos amigos e amigas que também estavam em seus períodos de experimentações. No entanto, eu sou a caçula de uma família com idade avançada e bastante conservadora, portanto, tive uma educação baseada em estigmas e medo. Nesse contexto percebi que, mesmo no período de experimentações de substâncias, momento de muitos excessos para alguns adolescentes, eu me mantinha um pouco mais cuidadosa quando fazia uso de algumas substâncias psicoativas, ou seja, já reduzia os danos de saúde e sociais sem ter ideia de que já estava me iniciando no mundo da redução de riscos e danos.


Com o passar dos anos, passei a estudar a temática de álcool e outras drogas na graduação de psicologia por conta própria, pois, no início dos anos 2000, não era tão comum falar de substâncias psicoativas e redução de danos no curso de psicologia.


Após minha graduação, tive a oportunidade de trabalhar em um programa municipal de assistência social a famílias (PROASF) em algumas comunidades da zona sul da cidade de São Paulo; essa atuação me aproximou fortemente da discussão sobre vulnerabilidade e desigualdade social, gênero e racismo.


Em seguida, a minha experiência foi com crianças e adolescentes em contexto de abrigamento fazendo parte da equipe de reestruturação de uma instituição sob intervenção judicial que abrigava 250 crianças e adolescentes no município de Carapicuíba. Foi surpreendente para uma jovem psicóloga que tinha como objetivo mudar o mundo! Nesse sentido, a vivência constante em um contexto em que as violações dos direitos humanos eram sistemáticas foi possível tentar minimizar os danos em relação às crianças, adolescentes e suas famílias atendidas por aquele serviço.


Além disso, o estigma imputado pelos conselheiros tutelares e pelo poder judiciário às famílias em vulnerabilidade agravada, com sofrimento psíquico e muitas vezes usuárias de substâncias estavam completamente relacionadas às violações de direitos produzidas pela extrema desigualdade social e desvantagem de acesso às políticas públicas. Foi fácil de identificar o quanto o Estado e seus representantes possuem modos de funcionamento perpetuadores de estigma e violação dos direitos das pessoas.


Esse capítulo da minha trajetória profissional foi fundamental para a minha entrada no campo das políticas sobre álcool e outras drogas. Passei a me aprofundar na área de pesquisa qualitativa e substâncias psicoativas e o primeiro estudo realizado foi sobre a opção de não uso de Ecstasy (MDMA-metilenodioxidometanfetamina). Esse estudo foi realizado a partir de observação participante em contextos de festas e festivais, principalmente de música eletrônica entre os anos de 2008 e 2011. Nesse período tive um belo encontro com o Centro de Convivência É de Lei propiciado pela grande Tharcila Chaves – amiga que estudava estratégias de redução de danos entre pessoas que usavam crack – o É de Lei havia acabado de ser contemplado em um edital da UNODC e Ministério da Saúde para desenvolver um projeto de prevenção às IST’s (infecções sexualmente transmissíveis) em contextos de festas. No ano de 2011, eu finalmente havia encontrado uma organização que trabalhava com as temáticas que tanto me faziam sentido.


Passei a trabalhar no Centro de Convivência É de Lei na coordenação do Projeto ResPire que se tornou uma referência em contextos de festas ao longo dos anos.


O Centro de Convivência É de Lei é uma organização da sociedade civil que atua com redução de danos desde 1998. Acompanhou pessoas que usavam cocaína injetável e acompanhou a mudança da forma de administração injetada para a fumada; a equipe fez troca de seringas, atuou com as profissionais do sexo, com pessoas em situação de rua, usuárias de substâncias psicoativas, além de fazer a prevenção das IST’s usando sempre o vínculo e a convivência como as melhores estratégias de atuação. O prazer de fazer parte do primeiro centro de convivência do Brasil para pessoas que usam drogas é indescritível, pois a complexidade é enorme, mas a possibilidade de construir coletivamente o cotidiano com as pessoas é maravilhoso.


Durante os anos de 2011 a 2014 participei de projetos de pesquisa interessantes relacionados ao uso de substâncias, como por exemplo, a administração de ayahuasca em um contexto laboratorial, realizando entrevistas semiestruturadas das pessoas voluntárias do estudo e uma grande imersão no mundo da ibogaína, sendo esta utilizada no tratamento de pessoas com problemas decorrentes do uso problemático de substâncias. Entrevistei cerca de vinte e duas pessoas que estavam abstinentes após se tratarem com a ibogaína. Essas experiências foram importantes e contribuíram para identificar os potenciais terapêuticos dessa substância e me manter próxima da área acadêmica.


Após aproximadamente três anos longe do É de Lei (2014-2017), período em que pude experienciar trabalhar como Assessora de Políticas Públicas sobre álcool e outras drogas no poder público, coordenando projetos de direitos humanos para as pessoas que vivem em situação de rua e usavam substâncias psicoativas. Além de fazer parte da coordenação colegiada intersetorial do Programa De Braços Abertos, projeto de garantia de direitos humanos pautado na redução de danos. Nessa época, eu viajei bastante e pude contar a experiência do Braços Abertos para muita gente. Decidi que era chegada a hora de sair do poder executivo municipal quando me deparei com uma situação extremamente violadora de direitos (uma grande ação policial contra as pessoas que usavam drogas na região central de São Paulo).


Após longas conversas com amigos, eu senti que podia voltar para o É de Lei com uma bagagem ainda maior e poder contribuir para que pudéssemos ampliar nossas ações, incidir ainda mais nas políticas públicas, garantir a defesa dos direitos das pessoas que usam drogas e, principalmente, possibilitar que as pessoas mais afetadas pela nefasta guerra às drogas ocupem lugares e possam exercer o direito da participação social.


Nesse pequeno relato, eu tentei expressar como sou atravessada pela redução de danos na minha vida pessoal e profissional, sempre lembrando que a partir da RD (redução de danos) podemos lutar por mudanças estruturais que combatam o estigma, a desigualdade social, o racismo e qualquer forma de discriminação de pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas.

SOBRE A AUTORA:


Maria Angélica Comis: Psicóloga clínica, redutora de danos, mestre em Psicobiologia, especialista em Medicina Comportamental e Terapia Cognitiva Comportamental, foi Assessora de Políticas Públicas sobre álcool e outras drogas da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, professora universitária, coordenou o Projeto ResPire, coordenou o Centro de Convivência É de Lei e a Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos.

 
 
 

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