COLETIVIDADE E SAÚDE MENTAL
Munch nos mostra no seu quadro “O GRITO” “ um grito infinito que atravessa a natureza”.
HILCEIA, na sua reflexão diante deste momento político, apresentada aqui por escrito, traz nosso grito pela vida.
Leiam o precioso texto da Hil no nosso blog. Comentem!

A saúde mental, frequentemente tratada como uma questão individual, de menor importância ou reservada ao descaso, está profundamente atravessada pelo tecido social em que vivemos. Em um momento político como o Brasil atual, em que a disputa presidencial coloca em jogo não apenas projetos de governo, mas a própria dignidade de milhões de pessoas, falar de bem-estar psicológico sem considerar a coletividade é quase uma contradição.
Quando um dos lados em disputa tem como horizonte a perda de direitos — trabalhistas, previdenciários, ambientais, sociais — e elege o dinheiro como patrão, o que está em risco não é apenas a economia ou a política institucional, aliás instituições, que estando em risco, também desorganiza a lógica coletiva. O que podemos observar é que o risco é visto a partir daquilo que responde pela vida concreta: o medo de perder o emprego, a angústia de não conseguir alimentar os filhos, a ansiedade diante da violência, principalmente, daqueles cuja existência está negada porque está fora da normativa hermética que insiste em tentar determinar o que é certo ou errado (negros, mulheres, LGBTQIA+), a depressão de quem se vê descartável. Esses não são quadros clínicos isolados; são sintomas de um modelo que trata seres humanos como mercadoria, que provocam um esgarçamento no tecido social importante.
Nesse cenário, a coletividade não é um luxo, é uma necessidade de sobrevivência psíquica. É no encontro com o outro — nas rodas de conversa, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nas comunidades, nas redes de apoio mútuo — que se constrói o contrapeso ao desamparo. Quando compartilhamos a dor, ela não desaparece, mas deixa de ser uma condenação solitária. Quando organizamos a luta por direitos, transformamos a impotência em agência, e a agência é um dos mais poderosos protetores da saúde mental.
A ideia de que “o dinheiro é o patrão” produz uma lógica de competição, desconfiança e isolamento. Se o outro é sempre um concorrente, o mundo se torna um campo de batalha onde não há descanso. A saúde mental, nesse contexto, é corroída por dentro: o indivíduo se culpa pelo fracasso, se envergonha da vulnerabilidade, adoece em silêncio. Suicídio, consumo de medicamentos, consumo de álcool e outras drogas são aparatos que podem reforçar a importância do apoio como saída ao sofrimento provocado pela lógica liberal do individualismo.
Já a perspectiva da coletividade propõe o oposto: se o problema é estrutural, a resposta também precisa ser coletiva. Não se trata de negar o sofrimento individual, mas de entender que ele tem raízes políticas e que pode ser acolhido e transformado em luta, portanto, resguardar a saúde mental no Brasil de hoje exige mais do que terapia e autocuidado — embora esses também sejam importantes. Exige reconhecer que nenhum de nós se salva sozinho. Exige construir laços, fortalecer redes, defender o SUS, os direitos trabalhistas, a educação pública, a cultura, a moradia, o alimento. Exige, acima de tudo, recusar que o dinheiro seja o patrão e afirmar que a vida, a dignidade e o cuidado coletivo devem estar no centro.
Um povo que se reconhece como coletivo adoece menos, porque não carrega sozinho o peso do mundo. E um povo que luta junto encontra, na própria luta, uma fonte de sentido, de pertencimento e de esperança — ingredientes indispensáveis para qualquer saúde mental que se pretenda real.




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