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VAMPIROS E LOBISOMENS DA SOCIEDADE BRASILEIRA: OS MONSTROS QUE SE ALIMENTAM DOS GRUPOS POBRES

AURÉLIO NOS APRESENTA “VAMPIROS E LOBISOMENS DA SOCIEDADE BRASILEIRA: OS MONSTROS QUE SE ALIMENTAM DOS GRUPOS POBRES”.


Aurélio conhece de perto esses monstros e agora nos apresenta pra verificarmos quais “monstros” somos ou como alimentamos a eles.


Leia , pense, comente conosco.



A sociedade brasileira não cria monstros no laboratório. Cria nos escritórios, nos gabinetes e nos batalhões. Não são Godzillas. São vampiros e lobisomens. E a presa preferida deles tem CEP na periferia.


Esses vampiros não têm capa nem dente pontudo. Usam terno, jaleco, crachá ou farda. Não dormem em caixão. Dormem em coberturas. Não saem só à noite. Trabalham em horário comercial.


Vampiro da Burocracia: Trancado no cartório, no posto de saúde, na fila do INSS. Esse se alimenta de tempo. Tempo de quem perdeu o dia de trabalho pra pegar uma senha. Tempo de quem espera 8 horas por uma consulta e ouve "volta mês que vem". Cada hora sugada é um prato de comida que não vai pra mesa. Ele não mata com estaca. Mata com "o sistema caiu".


Vampiro da Especulação: Esse não pisa na favela, mas é dono dela. Compra o terreno por quase nada, espera ônibus passar na porta e vende por milhão. Dorme enquanto o aluguel triplica e a família que era moradora, é expulsa pra mais longe. Não bebe sangue. Bebe chão e cospe condomínio onde tinha campo de futebol.


Já os lobisomens são diferentes. Não sugam devagar. Estraçalham. E a transformação não depende da lua. Depende de farda, de decreto ou de placa de "vende-se".


O Lobisomem da Farda é o mais conhecido. De dia jura que protege. De noite confunde celular com pistola e morador com alvo. Uiva com sirene desligada. Quando a lua está cheia de operação, entra na favela e o critério da mordida é correr. Se correu, virou lobo. Se ficou, virou estatística. Enterra suas vítimas com "auto de resistência" escrito na lápide.


O Lobisomem da Remoção chega de capacete e ordem judicial. Tem pés de trator. Onde passa, deixa rua sem nome e gente sem endereço. Uiva "progresso", "obra", "risco". E a matilha vem depois: reintegração de posse, spray de pimenta, escola que fecha. Ele não come gente. Come bairro inteiro. E cospe estacionamento.


Existe o Lobisomem do Subemprego: De dia é "empreendedor". Oferece vaga sem carteira, sem descanso, sem futuro. "Seja seu próprio chefe". De noite mostra os dentes: meta abusiva, aplicativo que desliga, acidente que é "culpa sua". Transforma gente em engrenagem até o corpo quebrar. Aí contrata outra. A lua cheia dele é fim de mês sem benefício.


E tem o Lobisomem do Preconceito: Não usa focinho. Usa o olhar. Na entrevista de emprego, na loja de shopping, no hospital. Fareja pobreza no sapato, no dente, no endereço. E rosna: "não tem a cara da empresa". Não arranha com garra. Arranha com porta batida. Deixa a vítima viva, mas sangrando autoestima na calçada.


A diferença entre eles: Vampiro precisa que você continue vivo. Pra sugar mês que vem. Lobisomem não. Ele mata e vai embora. O terreno fica livre, a vaga abre, o silêncio volta.


Mas têm algo em comum: só atacam quem não tem muro alto, segurança armada ou sobrenome. Só mordem quem anda a pé, pega busão lotado e depende do SUS.


Não adianta alho nem bala de prata. Bala de prata fura pobre antes de furar monstro. E o alho, tá caro.


O único jeito de ver um vampiro ou lobisomem é acender a luz. Luz de dados, de câmera, de lei que pega. Porque monstro de gravata e monstro de farda odeiam duas coisas: claridade e gente pobre que não abaixa a cabeça.


E enquanto a cidade dorme, eles trabalham. Porque a lua cheia deles, é todo dia.

SOBRE O AUTOR:


Aurélio Ferreira: Escritor, Ilustrador, Programador, Poliglota.

 
 
 

1 comentário


Karina Mesquita
Karina Mesquita
há 6 horas

Texto do Aurélio foi a própria luz, interruptor, rompeu escuridão. Obrigada!

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