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CUIDADO COM O MALANDRO: IMAGINÁRIO COLETIVO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE SOBRE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Certamente você mobilizará seu conhecimento para fazer um programa de tratamento para o seu paciente que é um dependente químico. Mas, você já pensou o que do seu imaginário pode influir nisso?


Cristiane e Tânia estudaram o imaginário coletivo de profissionais de saúde mental sobre a loucura.


Elas apresentam um pouco deste estudo para nós nesse interessante texto do nosso blog

Leia e examine você próprio como você pode temer alguns pacientes.


Comente conosco suas observações.



Cristiane e Tânia apresentam um estudo que faz parte de um conjunto de pesquisas que tem o objetivo de investigar o imaginário coletivo de profissionais de saúde mental sobre a loucura e/ou doença mental. Nessa investigação, elas focalizaram o dependente químico, já que observaram como pesquisadoras que esses pacientes trazem constantes desafios para esses trabalhadores na clínica contemporânea. 


Partem da ideia de que os profissionais de saúde mental, em seu cotidiano de trabalho, principalmente nas tomadas de decisão que interferem diretamente no tratamento do paciente psiquiatrizado, agem fundamentadas tanto nos conhecimentos teóricos e práticos adquiridos na educação formal, como também na atividade imaginativa, que concebemos, adotando a perspectiva da psicologia concreta de José Bleger (1963), como condutas.  


Ao utilizarem o conceito de imaginário coletivo referem-se tanto à conduta imaginativa em seu sentido mais conhecido, como produção de imagens psíquicas, mas também às práticas que geram produtos concretos, vale dizer, objetos e procedimentos, que se constituem como cultura, como ambiente humano, incluindo usos e costumes, crenças e valores. Assim, assumem que ao estudar o imaginário obtemos boas pistas daquilo que provavelmente será praticado e atuado no cotidiano, diante de pacientes psiquiátricos, pelos profissionais de saúde.


Como metodologia, por meio de entrevistas individuais, apresentaram uma série de dez fotografias de pessoas, uma de cada vez, retratadas em diferentes situações cotidianas, a treze sujeitos, profissionais de saúde mental, solicitando a invenção de histórias que foram anotadas pela pesquisadora. Essa estratégia dialógica visa favorecer a comunicação emocional dos participantes.  O material obtido foi considerado à luz do método psicanalítico (Bleger, 1963 e Herrmann, 2001).


Em uma segunda etapa, utilizando o método psicanalítico, abordaram o material, em reuniões do Grupo de Pesquisa, buscando a captação de campos de sentido afetivo emocional. Essa foi feita através de uma postura psicanalítico-fenomenológica.


A partir das treze narrativas do acontecer clínico, na qual foi descrito as histórias inventadas a partir das fotos apresentadas, chamou a atenção de que havia muitas menções referentes ao paciente dependente químico. Decidiram, dessa maneira, dedicar um trabalho a esse tema. Em contato com material, criaram/encontraram um campo de sentido afetivo – emocional, que denominaram: “Cuidado com o malandro”. Este se organiza ao redor da crença de que ao invés dos profissionais terem que ter um cuidado com um paciente que está sofrendo emocionalmente, eles precisam ter cautela com os dependentes químicos, já que esses são “malandros”.


Consideraram que tais pessoas usam, constantemente, de artimanhas, principalmente a mentira e manipulação, para obter vantagem em todas as situações, que muitas vezes, são até ilícitas. Não consideram as normas sociais, leis e as necessidades e desejos das pessoas ao redor, e dessa maneira, podem aproveitar da relação terapêutica para alcançarem ganhos próprios. Assim não buscam “verdadeiros” tratamentos e consequentemente não aderem a proposta clínica e dificilmente atingem progressos e mudanças positivas.


O quadro geral encontrado permite afirmar que conseguimos atingir concepções que os profissionais de saúde mental possuem sobre os doentes mentais, especificamente em relação aos dependentes químicos, que superam apenas as respostas politicamente corretas.


Dessa maneira, encontraram que tais trabalhadores classificam que o paciente dependente seria um falso doente, já que não adere ao tratamento verdadeiro, não apresentando melhoras. Além do mais, destacaram atitudes de manipulação e mentiras, já que buscam sempre situações a seu próprio favor e interesse individual. Tais atitudes são carregadas de pré- conceitos, especialmente os de ordem moral e ética. Entretanto, isso nem sempre corresponde à profundidade de tais pessoas, o que dificulta sua compreensão e seu tratamento. 

REFERÊNCIAS:


  1. Bleger, J. (1989). Psicologia da conduta. Artes Médicas. (Obra original publicada em 1963)

  2. Herrmann, F. (2001). Introdução à teoria dos campos. Casa do Psicólogo.


Referência do texto completo: Simões, C. H. D., & Aiello-Vaisberg, T. M. J. (2010). Cuidado com o malandro: Imaginário coletivo de profissionais de saúde sobre a dependência química. In Anais da VIII Jornada Apoiar: Promoção de vida e vulnerabilidade social na América Latina: reflexões e propostas (pp. 292–296).

SOBRE AS AUTORAS:


Cristiane Helena Dias Simões: Psicóloga (CRP 06/60754), doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atua como psicóloga clínica e é membro do grupo de pesquisa Psicopatologia, Psicanálise e Sociedade, da Universidade de São Paulo (USP).


Tânia Maria José Aiello-Vaisberg: Professora Sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da mesma instituição. É Livre-Docente em Psicopatologia e doutora e mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo.

 
 
 

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