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QUANDO UM CHURRASCO ENCONTROU A TEORIA DOS GRUPOS OPERATIVOS

há 5 dias
5 min de leitura

A preciosidade e experiência de uma profissional também se mostra quando ele consegue pensar em uma experiência da vida incluindo um conhecimento científico.


Letícia nos apresenta um encontro para um churrasco e inclui nesse encontro a teoria do Pichon Riviere.


É um texto muito interessante oferecido ao nosso blog. Leia e comente!



Recentemente vivi uma situação cotidiana simples (só que não!) que me fez pensar sobre a teoria dos grupos operativos. Inicialmente, era apenas uma organização de um churrasco entre colegas de trabalho de um CAPS AD III, que aconteceria no último final de semana de junho, isto é, uma semana antes do término do curso de Grupos Operativos - Módulo 2. Os professores do curso costumam reservar o último encontro para uma avaliação geral de como foi esse período em que estivemos juntos. Ao refletir sobre essa experiência do grupo do churrasco (que tinha sido recente) e o término do curso que se aproximava, tentei associar os acontecimentos com a teoria de Pichon.

 

Esta experiência me fez perceber o quanto estar em um grupo e realizar uma tarefa em conjunto pode ser mais complexa do que imaginamos. O grupo do churrasco era formado por psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. Trabalhamos em um CAPS AD III, nos encontramos todos os dias e vivenciamos uma rotina de trabalho intensa. Para facilitar a nossa comunicação, criamos um grupo no WhatsApp para organizar o churrasco, que aconteceria na minha casa. Precisávamos decidir quais carnes compraríamos, quem assaria, se contrataríamos um churrasqueiro, se cada um levaria um acompanhamento, se pagaríamos um buffet para que ninguém precisasse cozinhar, como dividiríamos as despesas, quem faria os pagamentos e as compras, e muitos outros detalhes.

 

Parecia uma tarefa simples, mas não foi. Cada um tinha uma ideia do que seria um bom churrasco. Vieram sugestões, dúvidas, divergências, mudanças de planos e um tempo dedicado tentando chegar a algum acordo. Em alguns momentos até pensei: "como um churrasco pode dar tanto trabalho? Muitas vezes pensamos que o difícil é realizar a tarefa, mas tive a impressão que o desafiador mesmo costuma ser construir um grupo capaz de realizá-la.

 

Houve pessoas que se posicionaram, opinaram e acompanharam as mensagens. Outras nem tanto. Todas as ideias eram bem-vindas, mas era preciso transformar opiniões individuais em decisões coletivas.

 

Sem perceber (ou percebendo sim!) ocupei um lugar onde comecei a organizar as ideias do grupo, retomava assuntos que haviam ficado sem resposta, procurava aproximar opiniões diferentes, provocava o pessoal que não tinha opinado espontaneamente e tentava caminhar com o grupo para tomada de decisões. Durante este processo, percebi o quanto esse papel havia sido, digamos, um pouco desconfortável e em alguns momentos tive vontade de tomar decisões sozinha. Inclusive, cheguei a pensar que talvez fosse mais simples não fazer nada, porque parecia dar muito trabalho chegar a acordos com um grupo de 20 pessoas.

 

Em alguns momentos senti que talvez estivéssemos nos afastando do objetivo inicial que era, no final das contas, comer bem, estar juntos, dar risada e aproveitar o sábado. A tarefa estava ficando complexa demais.

 

Depois fiquei pensando que talvez isso também tenha acontecido porque o churrasco seria na minha casa. Como anfitriã, naturalmente eu me sentia mais responsável para que tudo desse certo. Se o encontro fosse na casa de outra pessoa, era possível que eu tivesse participado de forma diferente. Parece que os papéis que assumimos em um grupo não dependem apenas das nossas características pessoais, eles também são influenciados pela tarefa, pelo contexto e pela posição que ocupamos naquele momento. E o grupo vai construindo os papéis à medida que as necessidades vão surgindo.

 

Achei curioso perceber que todos nós do grupo do churrasco eram profissionais da saúde mental, que trabalham justamente ajudando pessoas a lidar com conflitos e encontrar soluções cotidianas. Mesmo assim, quando era a nossa vez, também encontramos dificuldades.

 

Percebi que a tarefa explícita era organizar um churrasco, mas as implícitas eram pensar juntos, ouvir as opiniões, ter um consenso, considerar as várias ideias individuais, e principalmente construir algo coletivamente.

 

Eu tenho um outro grupo de amigos, que não são pessoas do trabalho, e que frequentam muito a minha casa. E fazer churrasco é algo central em nossos encontros. Neste grupo, a organização costuma ser mais simples: quem recebe o grupo em casa, compra tudo e depois divide os custos. Existe uma confiança maior e um conhecimento prévio dos gostos e limites de cada um. Não é necessário discutir tantos detalhes, porque já existem acordos implícitos construídos ao longo do tempo.

 

Já neste grupo de colegas de trabalho, isso não existia ainda. Foi nossa primeira experiência de fazer algo assim fora do ambiente de trabalho. Nesta ocasião, era preciso construir essas referências do zero. Não sabíamos exatamente as preferências de cada um, quanto cada participante queria ou podia gastar, nem como seria a melhor forma de tomadas de decisões. Por isso, tudo precisava ser conversado e ajustado. A mesma tarefa pode ser simples em um contexto e bastante complexa em outro, porque cada grupo traz sua própria história, seus vínculos e sua forma de lidar com as diferenças.

 

E acho que não era apenas sobre organizar um churrasco, mas sobre construir confiança suficiente para que essa organização fosse possível.

 

No final, o churrasco aconteceu, foi muito divertido, leve, agradável e todos aproveitaram muito. Pensamos em fazer o próximo. Acredito que será mais fácil porque alguns acordos já foram construídos. Ou talvez novos fenômenos apareçam e nos surpreendam.

 

Assim, ao tentar aproximar os fenômenos que aconteceram naquele grupo do churrasco com a teoria de Pichon-Rivière, cheguei a algumas reflexões que me pareceram muito importantes. Percebi que não precisamos estar em um grupo terapêutico para observar os fenômenos grupais. Eles acontecem o tempo todo: na família, entre amigos, no trabalho, na equipe, ou simplesmente em um churrasco.

 

Outra reflexão foi sobre os papéis que ocupamos nos grupos. Em diferentes momentos, podemos organizar, questionar, acolher, propor, esperar, liderar, resistir ou apenas observar. Talvez a riqueza da vida em grupo esteja nessa possibilidade de cada um transitar nos diferentes papéis, conforme a tarefa e o momento exigirem. Poder experimentar outras formas de estar no grupo, sem ficar aprisionado em um único papel. Poder contar com nossa presença para contribuir com a tarefa, mas também permitir que outras pessoas ocupem esse espaço quando fizer sentido.

 

No fim das contas, acho que essa foi a maior aprendizagem que um simples churrasco me proporcionou. Mais do que conceitos, ele me mostrou que a teoria de Pichon-Rivière está viva nas pequenas experiências do cotidiano. E que, quando conseguimos circular nos grupos com mais flexibilidade e mobilidade nos papéis, abrimos a possibilidade para termos uma vida com mais liberdade, leveza e saúde.

SOBRE A AUTORA:


Letícia Felipe Passeri: Terapeuta Ocupacional tecida no cotidiano do SUS e da RAPS há 21 anos. Com diversas formações e especializações ao longo da trajetória, tem como principal referência de estudo e prática clínica o Método da Terapia Ocupacional Dinâmica. Atua no cuidado em saúde mental em CAPS AD III e consultório particular.

 
 
 

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